TDAH: o que é, como identificar e quais os caminhos para tratar o transtorno
- Yuri Zaché Ramos
- 22 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Este artigo foi escrito por Yuri Zaché Ramos, psicólogo clínico (CRP 16/11434).

Você já ouviu que “a criança é agitada demais” ou que “o adulto é distraído e vive no mundo da lua”? Essas frases, muitas vezes ditas sem reflexão, podem esconder uma condição neurobiológica real e que merece atenção: o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Mais do que um simples traço de personalidade, o TDAH é um transtorno que afeta a atenção, a organização, o controle de impulsos e a regulação emocional, impactando a vida pessoal, acadêmica e profissional. Neste artigo, você vai entender o que é o TDAH, seus principais sintomas, as causas mais conhecidas, como é feito o diagnóstico e quais abordagens terapêuticas baseadas em evidências são indicadas para o tratamento.
A saúde mental no Brasil: números que preocupam
O TDAH é um dos transtornos mais diagnosticados na infância, mas estudos mostram que ele persiste na vida adulta em até 60% dos casos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 5% e 7% das crianças em idade escolar no mundo são diagnosticadas com TDAH.
No Brasil, dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) apontam que cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes apresentam sintomas compatíveis com o transtorno. Apesar disso, muitos ainda enfrentam um longo caminho até o diagnóstico, seja por falta de informação, preconceito ou dificuldade de acesso a especialistas. Esse atraso no diagnóstico pode levar a prejuízos significativos: dificuldades escolares, baixa autoestima, problemas de relacionamento e até maior risco de desenvolver transtornos associados como ansiedade e depressão.
O que é o TDAH?
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma condição neurobiológica de causas multifatoriais, que afeta principalmente as funções executivas do cérebro — como foco, organização, memória operacional e controle inibitório.
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o TDAH se apresenta em três tipos:
Predominantemente desatento
Predominantemente hiperativo/impulsivo
Combinado (quando há características dos dois anteriores)
O transtorno pode se manifestar em diferentes contextos casa, escola, trabalho e não é apenas “falta de esforço” ou “preguiça”, mas sim uma dificuldade real de funcionamento neurológico.
Quais são os sinais e sintomas?
Os sintomas do TDAH se dividem em dois grupos principais:
1. Desatenção
Dificuldade em manter o foco em tarefas
Esquecimento frequente
Perder objetos
Evitar tarefas que exigem esforço mental prolongado
Erros por descuido em atividades escolares ou profissionais
2. Hiperatividade e impulsividade
Agitação física constante (mexer mãos e pés, se remexer na cadeira)
Falar excessivamente
Dificuldade em esperar a vez
Interromper conversas ou atividades alheias
Atos impulsivos sem pensar nas consequências
É importante lembrar que todos podem apresentar esses comportamentos em algum momento. O diagnóstico de TDAH só é considerado quando os sintomas são frequentes, persistentes e impactam negativamente o funcionamento do indivíduo.
Causas e fatores de risco
As causas do TDAH são multifatoriais, envolvendo aspectos genéticos, neurobiológicos e ambientais.
Genética: O TDAH é altamente hereditário. Estudos indicam que, se um dos pais tem o transtorno, há até 50% de chance de os filhos também apresentarem.
Disfunções neurológicas: Alterações em áreas do cérebro responsáveis pela autorregulação, como o córtex pré-frontal, estão associadas ao transtorno.
Fatores ambientais: Exposição a álcool, tabaco ou drogas durante a gestação, prematuridade, baixo peso ao nascer e adversidades psicossociais podem aumentar o risco.
É fundamental desmistificar ideias erradas como “falta de educação” ou “excesso de tecnologia” como causas diretas do TDAH.
Consequências do TDAH
Sem diagnóstico e tratamento adequados, o TDAH pode comprometer seriamente várias áreas da vida:
Desempenho escolar: dificuldade em manter a atenção, concluir tarefas e seguir instruções.
Relações sociais: impulsividade e dificuldades de autocontrole podem gerar conflitos.
Saúde emocional: frustrações constantes podem levar a baixa autoestima, ansiedade e depressão.
Vida adulta: maior risco de acidentes, problemas com organização financeira e dificuldades profissionais.
Por isso, a detecção precoce e o acompanhamento psicológico são fundamentais para evitar esses impactos a longo prazo.
Como a psicologia pode ajudar?
A psicologia oferece ferramentas fundamentais para o diagnóstico e tratamento do TDAH.
Terapias recomendadas:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): ajuda o paciente a desenvolver estratégias para organizar o cotidiano, melhorar o foco e lidar com a impulsividade.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): trabalha com valores pessoais e aceitação das dificuldades para promover ações mais conscientes.
Treinamento parental: para crianças, o envolvimento dos pais no processo terapêutico é essencial, com orientações práticas para lidar com o comportamento em casa.
Mindfulness: técnicas de atenção plena auxiliam no aumento da autorregulação emocional e no controle da impulsividade.
A atuação multidisciplinar (psicólogo, psiquiatra, pedagogo) também é importante para garantir um acompanhamento mais completo.
Dicas práticas para o dia a dia
Para quem convive com o TDAH, algumas estratégias simples podem melhorar significativamente a qualidade de vida:
Crie uma rotina estruturada com horários definidos.
Use lembretes visuais e alarmes.
Divida grandes tarefas em etapas menores.
Estimule pausas regulares entre as atividades.
Evite ambientes com excesso de estímulos.
Reforce positivamente os comportamentos adequados.
Essas práticas, combinadas com o apoio profissional, facilitam o dia a dia e reduzem a sobrecarga emocional.
Conclusão
O TDAH é um transtorno complexo, mas com tratamento e compreensão adequados, é possível viver com qualidade, desenvolver habilidades e alcançar o potencial pleno em todas as fases da vida.
Se você desconfia que tem TDAH ou conhece alguém que apresenta os sintomas, buscar ajuda psicológica é o primeiro passo. Com o acompanhamento correto, é possível desenvolver estratégias para superar os desafios e construir uma vida mais organizada e equilibrada.
Referências
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA)
American Psychiatric Association – DSM-5
Barkley, R. A. (2014). “TDAH: um guia completo para entender e conviver com o transtorno”
Scielo & PubMed – artigos científicos sobre TDAH



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